Acessos vasculares

Fístula arteriovenosa: o que é e como é a cirurgia

A fístula arteriovenosa é uma ligação feita por cirurgia entre uma artéria e uma veia, geralmente no braço, para que a veia fique larga e com fluxo de sangue suficiente para a hemodiálise. Para a maioria das pessoas que vão fazer hemodiálise por muito tempo, é o acesso com menor risco de infecção e maior duração. A cirurgia costuma ser feita com anestesia local ou bloqueio do braço, e a fístula leva em geral de 6 a 8 semanas para ficar pronta para uso.

O que é a fístula arteriovenosa

Nas sessões de hemodiálise, o sangue sai do corpo, passa por um filtro e volta, em geral três vezes por semana. O processo exige um fluxo alto: as veias comuns do braço são finas demais para isso, e puncionar artérias repetidamente não é seguro.

Na fístula, o cirurgião une uma veia superficial a uma artéria próxima. Com o sangue arterial passando por ela com alta pressão e velocidade, a veia se dilata e a parede fica mais espessa, um processo chamado maturação. Depois de madura, a veia pode ser facilmente acessada e puncionada com segurança a cada sessão.

Ao encostar a mão sobre a fístula, sente-se uma vibração contínua, o frêmito. É o sinal de que a fístula está funcionando.

Fístula arteriovenosa: a artéria é ligada à veia, que se dilata e recebe as duas agulhas da hemodiálise Agulha: o sanguevolta da máquinaAgulha: o sanguevai para a máquina Veia dilatada(fístula madura) Artéria Ligação feitana cirurgia ← em direção ao coraçãomão →Fístula arteriovenosa: a artéria é ligada à veia, que se dilata e recebe as duas agulhas da hemodiálise Agulha: o sanguevolta da máquinaAgulha: o sanguevai para a máquina Veia dilatada(fístula madura) Artéria Ligação feitana cirurgia ← em direção ao coraçãomão →
Na fístula, parte do sangue da artéria passa direto para a veia. A veia se dilata e recebe as duas agulhas da hemodiálise: uma leva o sangue para a máquina e a outra o traz de volta.

Fístula, prótese ou cateter: qual a diferença

AcessoComo éVantagensLimitações
Fístula arteriovenosaLigação da própria artéria com a própria veiaMenor risco de infecção e maior duração após amadurecerPrecisa de semanas para amadurecer, e isso nem sempre acontece
Prótese (enxerto)Tubo sintético sob a pele, que conecta uma artéria e uma veiaPode ser usada mais cedo, em geral após 2 a 4 semanas; alguns modelos em poucos diasMais estenoses (estreitamentos) e tromboses e maior risco de infecção que a fístula
Cateter venoso centralTubo em uma veia grande do pescoço ou do tóraxUso imediatoMaior risco de infecção e de estenose (estreitamento) das veias centrais; melhor como solução temporária

As diretrizes atuais não tratam a fístula como regra para todos. A escolha considera as veias e artérias de cada pessoa, a idade, outras doenças, o tempo previsto em diálise e a possibilidade de transplante. A diretriz americana chama isso de plano de vida com a doença renal. Para a maioria das pessoas com boas veias que vão começar a hemodiálise, porém, a fístula continua sendo a primeira opção.

No Brasil, cerca de 172 mil pessoas faziam diálise em julho de 2024, e quase um quarto dos pacientes usava cateter de longa permanência, segundo o Censo Brasileiro de Diálise. Planejar a fístula com antecedência é o que permite evitar ou encurtar o tempo com cateter.

Quando fazer a fístula

O ideal é fazer a fístula antes de a hemodiálise começar, para que haja tempo de ela amadurecer. Em geral, o nefrologista encaminha ao cirurgião vascular quando a doença renal está avançada e a diálise é prevista para os meses seguintes. Isso nem sempre é possível quando a hemodiálise começa em caráter de urgência.

Quem já faz hemodiálise por cateter também pode fazer a fístula e, quando possível, deve fazê-la, para depois retirar o cateter.

O mapeamento com Doppler antes da cirurgia

Antes da cirurgia, o ultrassom com Doppler avalia o diâmetro e a qualidade das veias e artérias dos dois braços. É esse exame que define o melhor local para a fístula e aumenta a chance de ela amadurecer. Por isso, as diretrizes recomendam o mapeamento antes de toda fístula. No consultório, o Doppler é feito durante a própria consulta.

Em geral, dá-se preferência ao braço não dominante e ao ponto mais próximo do punho que for adequado. Assim, as veias mais acima ficam preservadas para acessos futuros.

Tipos de fístula mais comuns

Locais da fístula no braço: punho, cotovelo e braço; em geral, começa-se pelo ponto mais próximo da mão em geral, começa-se pelo ponto mais próximo da mão 123 1 · Punho/antebraçoradiocefálica2 · Cotovelobraquiocefálica3 · Braçobraquiobasílica artéria veia ombromãoLocais da fístula no braço: punho, cotovelo e braço; em geral, começa-se pelo ponto mais próximo da mão ombro 123 1 · Punho/antebraçoradiocefálica2 · Cotovelobraquiocefálica3 · Braçobraquiobasílica mão artéria veia
A fístula pode ser feita em diversos lugares; os mais comuns são o punho, o cotovelo e o braço. Começar o mais perto possível da mão preserva as veias de cima para acessos futuros.
  • Radiocefálica (no punho ou antebraço): une a artéria radial à veia cefálica. Costuma ser a primeira escolha quando os vasos do antebraço são adequados.
  • Braquiocefálica (pouco abaixo da dobra do cotovelo): une a artéria braquial à veia cefálica, ou intermédia, pouco abaixo da dobra do cotovelo. Geralmente tem fluxo maior e amadurece com mais frequência que a do punho.
  • Braquiobasílica: realizada no terço distal do braço. Pode ser feita com transposição, com um segundo corte perto da axila e um tempo cirúrgico um pouco maior, ou superficializada em uma segunda cirurgia, em que a veia basílica, que fica profunda no braço, é trazida para perto da pele para permitir as punções.

Como é a cirurgia

  • É feita no centro cirúrgico, em geral com anestesia local ou com bloqueio anestésico do braço (bloqueio do plexo braquial), às vezes com sedação leve.
  • A incisão é pequena, e a cirurgia dura em geral cerca de 30 minutos, conforme o tipo de fístula e a experiência e perícia do cirurgião.
  • Na maioria das vezes, a alta acontece no mesmo dia.
  • O fluxo habitual é comparecer ao hospital ou à clínica em jejum, realizar o procedimento ambulatorialmente sob anestesia local e receber alta pouco depois da cirurgia, desde que não ocorra nenhuma intercorrência.

Qual o processo e quanto tempo a fístula leva para amadurecer

  1. Pré-operatório: mapeamento com DopplerDefine o melhor local para a fístula.
  2. CirurgiaA artéria é ligada à veia, em geral em cerca de 30 minutos.
  3. MaturaçãoEm geral, de 6 a 8 semanas: a veia se dilata e a parede fica mais espessa.
  4. AvaliaçãoO exame físico e o Doppler confirmam que a fístula está pronta.
  5. Uso na hemodiáliseAs punções passam a ser feitas na fístula, e o cateter, se houver, pode ser retirado após algumas sessões usando a fístula.

Então, em geral, o processo todo dura cerca de 2 meses. A fístula está pronta quando a veia tem calibre e fluxo suficientes e fica superficial o bastante para ser puncionada com segurança. Isso é confirmado no exame físico e no Doppler.

Nem toda fístula amadurece. Quando isso acontece, muitas vezes há uma causa tratável, como uma estenose (estreitamento) ou ramos da veia que desviam o fluxo. Essas causas podem ser corrigidas com angioplastia (abertura do estreitamento com um pequeno balão) ou com pequenas cirurgias.

Após a confecção, exercícios com a mão, como apertar uma bolinha, costumam ser orientados. O efeito na maturação é modesto, mas é uma medida simples e segura.

Cuidados com o braço da fístula

No dia a dia

  • Sinta o frêmito todos os dias, de manhã e à noite.
  • Não deixe medir a pressão, colher sangue nem aplicar soro nesse braço. Só a equipe de diálise deve puncionar a fístula.
  • Evite relógio, pulseiras, roupas apertadas e dormir sobre o braço da fístula.
  • Não carregue peso excessivo com esse braço nas primeiras semanas.
  • Lave o braço diariamente com água corrente tratada e sabonete neutro.
  • Cuide da pressão. A pressão alta deve ser tratada, mas episódios de pressão baixa também podem levar à oclusão da fístula por baixo fluxo.

Procure atendimento no mesmo dia se

  • o frêmito parar ou ficar muito mais fraco;
  • a mão ficar fria, pálida, arroxeada, dormente ou com dor forte;
  • surgir vermelhidão, calor, secreção ou febre;
  • houver sangramento que não para com compressão;
  • o braço inchar muito ou a pele sobre a fístula ficar fina, brilhante ou com feridas.

Uma fístula que parou de funcionar muitas vezes pode ser recuperada. Quanto antes for tratada, maior a chance.

Possíveis complicações

As mais comuns são a falta de maturação, os hematomas, as estenoses (estreitamentos) e a oclusão (trombose da fístula). Menos frequentes são a síndrome do roubo, em que a fístula desvia sangue da mão e causa frio, dor, dormência ou lesões, os aneurismas no trajeto das punções, o fluxo excessivo, que pode sobrecarregar o coração, e as infecções. A maior parte tem tratamento, por cirurgia ou por cateterismo (angioplastia). O acompanhamento regular ajuda a encontrar problemas antes que a fístula pare.

Perguntas frequentes

A cirurgia da fístula dói?

Com anestesia local ou bloqueio do braço, a cirurgia não deve doer. Depois, a dor costuma ser leve e controlada com analgésicos simples.

Quando posso começar a usar a fístula?

Só depois de ela amadurecer, em geral entre 6 e 8 semanas, e após avaliação do cirurgião ou da equipe de diálise. Puncionar cedo demais aumenta o risco de hematoma e de perda da fístula.

Posso tomar banho depois da cirurgia?

Sim. Siga a orientação dada na alta: em geral, o curativo deve ficar limpo e seco até a retirada dos pontos. Você pode lavar o local da cirurgia com água tratada ou soro fisiológico e sabonete neutro, ou usar um curativo impermeável no banho. Sprays, géis e pomadas geralmente não são necessários.

Posso dormir sobre o braço da fístula?

É melhor evitar. Dormir sobre o braço pode comprimir a fístula e favorecer a trombose.

Quem tem fístula pode fazer exercícios?

Sim. A atividade física é recomendada. Mas evite pancadas, como as de esportes de contato, e compressão sobre esse braço, especialmente nas primeiras semanas.

A fístula precisa ser fechada depois de um transplante?

Não necessariamente. Muitas pessoas mantêm a fístula depois do transplante. A decisão de fechá-la é individual e tomada com o nefrologista e o cirurgião vascular.

Referências

  1. Lok CE, Huber TS, Lee T, et al. KDOQI Clinical Practice Guideline for Vascular Access: 2019 Update. Am J Kidney Dis. 2020;75(4 Suppl 2):S1–S164. doi:10.1053/j.ajkd.2019.12.001
  2. Schmidli J, Widmer MK, Basile C, et al. Vascular Access: 2018 Clinical Practice Guidelines of the European Society for Vascular Surgery (ESVS). Eur J Vasc Endovasc Surg. 2018;55(6):757–818. doi:10.1016/j.ejvs.2018.02.001
  3. Nerbass FB, Lima HN, Zawadzki B, Moura-Neto JA, Lugon JR, Sesso R. Brazilian Dialysis Survey 2024. Braz J Nephrol. 2026;48(1). doi:10.1590/2175-8239-JBN-2025-0112en
Dr. Pedro Luciano Mellucci Filho, cirurgião vascular

Sobre o autor

Dr. Pedro Luciano Mellucci Filho

CRM-SP 179178 · RQE 84778

Dr. Pedro Mellucci é cirurgião vascular em Presidente Prudente (SP), dedicado a acessos vasculares para hemodiálise e quimioterapia: fístulas, próteses e cateteres.

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