Acessos vasculares

Cateter para hemodiálise: temporário e de longa permanência

O cateter para hemodiálise é um tubo flexível colocado em uma veia grande, em geral no tórax ou na base do pescoço, que permite começar a diálise imediatamente. Há dois tipos: o temporário (Shiley), para dias ou poucas semanas, e o de longa permanência (Permcath), que passa por um túnel sob a pele e pode permanecer por meses. Como tem mais risco de infecção que a fístula, o ideal é que o cateter seja uma ponte até um acesso definitivo sempre que isso for possível.

Quando o cateter é necessário

  • Quando a hemodiálise precisa começar com urgência e ainda não há fístula ou prótese pronta.
  • Enquanto uma fístula amadurece, ou quando a fístula ou a prótese param de funcionar e o paciente precisa fazer hemodiálise.
  • Quando não há veias e artérias adequadas para fístula ou prótese.
  • Em situações em que o cateter é a melhor escolha para o plano de tratamento do paciente, como diálise prevista por pouco tempo ou transplante próximo.

No Brasil, cerca de um quarto dos pacientes em hemodiálise usava cateter de longa permanência em 2024, segundo o Censo Brasileiro de Diálise. Parte deles poderia ter uma fístula com planejamento antecipado.

Temporário (Shiley) ou de longa permanência (Permcath): qual a diferença

Cateter temporário: entra direto na veia do pescoço, com a ponta perto do coração Entradano pescoço Veia jugularinterna Ponta pertodo coração Coração TemporárioCateter de longa permanência: passa por um túnel sob a pele do tórax antes de entrar na veia do pescoço Veia jugularinterna Ponta pertodo coração Túnel soba pele Cuff(anel) Saídano tórax Coração Longa permanência (tunelizado)
Vista de frente: o lado direito do paciente aparece à esquerda. O temporário entra diretamente na veia escolhida. O de longa permanência passa por um túnel sob a pele e sai no tórax; o anel (cuff), dentro do túnel, ajuda a fixá-lo e a proteger contra infecção.
TipoComo ficaPor quanto tempoQuando se usa
Temporário (não tunelizado)Entra direto na veia, fixado à pele com pontosDias a poucas semanasUrgências e internações
De longa permanência (tunelizado, com cuff)Percorre um túnel sob a pele do tórax antes de entrar na veia. Um anel de feltro (cuff) se adere ao tecido e ajuda a fixá-lo e a proteger contra infecçãoMesesEnquanto a fístula amadurece ou quando o cateter é o acesso definido

Onde o cateter é colocado

A veia preferida é a jugular interna direita, no pescoço. Ela oferece o caminho mais direto até o coração e tem menos complicações.

A veia subclávia, abaixo da clavícula, é evitada quando possível: o cateter nela pode estreitar a veia e prejudicar uma fístula futura no braço do mesmo lado. A veia femoral, na virilha, fica reservada para situações específicas, pois tem risco maior de infecção e de trombose da veia onde o cateter está implantado.

Quando há estenose (estreitamento) das veias, especialmente em pacientes que já usaram vários cateteres, vias alternativas também podem ser empregadas, como a veia inominada (também chamada de tronco venoso braquiocefálico), a veia cava inferior por via translombar e a via trans-hepática. Esses locais devem ficar reservados a cirurgiões com experiência.

Como é o implante

  • O implante é feito com anestesia local, e pode ser associada uma sedação leve.
  • A punção da veia deve ser guiada por ultrassom, o que reduz complicações.
  • No cateter de longa permanência, a posição da ponta é conferida por radioscopia (raio X em tempo real).
  • Em quem nunca usou cateter, o procedimento dura em geral cerca de 15 minutos. O cateter é testado logo depois da passagem e pode ser usado no mesmo dia.
  • O procedimento é feito em sala do centro cirúrgico com arco em C (raio X móvel) ou na hemodinâmica. O paciente deve chegar ao hospital ou à clínica em jejum e, se a passagem ocorrer sem intercorrências, é liberado logo depois.

Cuidados com o cateter

No dia a dia

  • Mantenha o curativo limpo e seco. A troca do curativo deve ser feita pela equipe de diálise.
  • No banho, proteja o curativo para que não molhe, como orientado pela equipe. Em geral, indica-se um curativo impermeável. Nunca tome banho de imersão (piscina, mar ou banheira).
  • Depois da cicatrização completa, em geral é aceitável que o cateter de longa permanência fique exposto no banho. Já o orifício do cateter temporário deve ser mantido seco o tempo todo.
  • O cateter é exclusivo para a hemodiálise. Não deve ser usado para colher sangue ou aplicar medicamentos, a não ser por orientação da equipe ou em emergências.
  • Não retire o curativo, não mexa nas tampas e mantenha as pinças fechadas.
  • Lave as mãos antes de qualquer contato com a região.

Procure atendimento no mesmo dia se

  • tiver febre ou calafrios, principalmente durante ou depois da sessão;
  • surgir vermelhidão, dor, pus ou secreção no local de saída do cateter;
  • o cateter sair parcialmente, se deslocar ou sangrar;
  • o braço, o pescoço ou o rosto do lado do cateter incharem;
  • tiver falta de ar de repente.

Febre em quem usa cateter de hemodiálise deve ser avaliada no mesmo dia. A infecção da corrente sanguínea ligada ao cateter é grave e precisa de tratamento rápido.

Problemas mais comuns

Os mais comuns são a infecção, no local de saída ou na corrente sanguínea, e o mau funcionamento, com fluxo baixo por coágulo, por uma película de fibrina ao redor da ponta ou por mudança de posição. Também podem ocorrer a trombose e o estreitamento das veias centrais, que pode levar a edema (inchaço) do braço e dificultar acessos futuros.

Muitas dessas situações são tratadas sem trocar o cateter. Quando a troca é necessária, ela pode ser feita pelo mesmo trajeto ou por outro local. Por isso, manter o cateter no lugar até a troca pode facilitar o procedimento.

Por que planejar a saída do cateter

Estudos associam o uso prolongado de cateter a mais infecções e internações do que a fístula. Por isso, sempre que uma fístula arteriovenosa ou uma prótese é possível, o plano inclui fazê-la e retirar o cateter assim que o novo acesso puder ser usado.

A retirada do cateter de longa permanência é um procedimento rápido, com anestesia local, que geralmente dura menos de 5 minutos.

Perguntas frequentes

Dói colocar o cateter de hemodiálise?

O procedimento é feito com anestesia local. Pode haver sensação de pressão e um desconforto leve, mas não dor forte.

Posso tomar banho usando cateter?

Sim, com o curativo protegido, de preferência impermeável. Depois da cicatrização completa, o cateter de longa permanência em geral pode ficar exposto no banho; o temporário deve ficar sempre seco. Banho de imersão (piscina, mar ou banheira) não é permitido enquanto houver cateter.

Quanto tempo o cateter pode ficar?

O temporário, de dias a poucas semanas. O de longa permanência pode ficar meses, enquanto funcionar sem complicações, mas o ideal é usá-lo pelo menor tempo possível.

Posso fazer a fístula mesmo usando cateter?

Sim. Quando há veias adequadas, é o recomendado. O planejamento considera o lado em que está o cateter.

O cateter de hemodiálise é igual ao da quimioterapia?

Não. O de hemodiálise é mais calibroso, tem duas vias, uma para o sangue sair e outra para voltar, e fica com uma parte para fora da pele. O da quimioterapia, o port, fica todo sob a pele.

Referências

  1. Lok CE, Huber TS, Lee T, et al. KDOQI Clinical Practice Guideline for Vascular Access: 2019 Update. Am J Kidney Dis. 2020;75(4 Suppl 2):S1–S164. doi:10.1053/j.ajkd.2019.12.001
  2. Schmidli J, Widmer MK, Basile C, et al. Vascular Access: 2018 Clinical Practice Guidelines of the European Society for Vascular Surgery (ESVS). Eur J Vasc Endovasc Surg. 2018;55(6):757–818. doi:10.1016/j.ejvs.2018.02.001
  3. Nerbass FB, Lima HN, Zawadzki B, Moura-Neto JA, Lugon JR, Sesso R. Brazilian Dialysis Survey 2024. Braz J Nephrol. 2026;48(1). doi:10.1590/2175-8239-JBN-2025-0112en
Dr. Pedro Luciano Mellucci Filho, cirurgião vascular

Sobre o autor

Dr. Pedro Luciano Mellucci Filho

CRM-SP 179178 · RQE 84778

Dr. Pedro Mellucci é cirurgião vascular em Presidente Prudente (SP), dedicado a acessos vasculares para hemodiálise e quimioterapia: fístulas, próteses e cateteres.

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