Acessos vasculares

Fístula parou de funcionar: o que fazer e como ela pode ser salva

Quando o frêmito (a vibração que se sente sobre a fístula) de uma fístula que funcionava bem some, quase sempre a fístula sofreu uma trombose: o sangue coagulou dentro dela. Na maioria dos casos, a causa é uma estenose, um estreitamento que já vinha reduzindo o fluxo. Muitas fístulas podem ser salvas com a retirada do coágulo e o tratamento da estenose (estreitamento), por cirurgia ou por cateter, e as chances são maiores quanto antes o tratamento é feito. Por isso, a fístula que parou deve ser avaliada pelo cirurgião vascular o mais breve possível.

Como saber se a fístula parou

A fístula que funciona tem um frêmito contínuo, sentido com a mão, e um sopro, ouvido com o estetoscópio. Os sinais de que ela parou são:

  • o frêmito sumiu ou ficou muito mais fraco que o habitual;
  • a veia da fístula ficou endurecida, às vezes dolorida, como um cordão sob a pele;
  • na sessão, a equipe não consegue puncionar ou não obtém fluxo pela fístula.

Se o frêmito sumiu, procure atendimento no mesmo dia

  • Não espere a próxima sessão de hemodiálise para avisar.
  • Avise a sua clínica de diálise e o cirurgião vascular que acompanha o seu acesso.
  • Se tiver, leve o último Doppler ou relatório da fístula e a lista dos seus medicamentos.

Quanto mais cedo o coágulo é retirado, maior a chance de salvar a fístula e de evitar um cateter. Se precisar dessa avaliação, entre em contato com a nossa equipe por WhatsApp ou telefone e informe que é urgente.

Sinais de que a fístula pode parar em breve

A trombose costuma ser o fim de um problema que já dava sinais. Avise a equipe se notar:

  • sangramento que demora mais que o habitual para parar depois da retirada das agulhas;
  • pressão venosa alta na máquina ou fluxo baixo nas sessões, avisados pela equipe de diálise;
  • dificuldade cada vez maior para puncionar;
  • o frêmito virou uma pulsação forte, como uma batida, em vez de uma vibração contínua;
  • inchaço do braço, do ombro ou do rosto do lado da fístula.

Esses sinais sugerem uma estenose. Tratada antes da trombose, ela costuma ser corrigida com um procedimento mais simples, e a fístula nem chega a parar.

Por que a fístula para

A causa mais comum é a estenose (estreitamento) da veia da fístula. O fluxo alto e as punções repetidas fazem a parede da veia engrossar em alguns pontos. O estreitamento reduz o fluxo até que o sangue coagula.

Como a fístula para e como é tratada: estenose, trombose e tratamento com retirada do coágulo e angioplastia com balão 1 · Estenose Estreitamento: o fluxo diminui 2 · Trombose Coágulo (trombo): a fístula para 3 · Tratamento Coágulo retirado e estreitamentodilatado com balão
A estenose reduz o fluxo na veia da fístula (1) até que se forma um coágulo e a fístula para (2). O tratamento retira o coágulo e dilata o estreitamento com um balão, devolvendo o fluxo (3).

Outros fatores que contribuem:

  • Queda da pressão arterial, durante ou depois da diálise, por desidratação, diarreia ou retirada de muito líquido na sessão.
  • Compressão da fístula: dormir sobre o braço, roupas ou relógios apertados, ou compressão prolongada ou forte demais depois da retirada das agulhas.
  • Hematomas por punções difíceis.
  • Infecção e alterações da coagulação, menos comuns.

A fístula pode ser salva?

Muitas vezes, sim. As diretrizes de acesso vascular recomendam tratar a fístula trombosada o quanto antes. Nas primeiras horas e dias, o coágulo ainda é recente e sai com mais facilidade. Com o passar dos dias, ele endurece e se adere à parede da veia, e as chances de resgate diminuem. Em geral, tratamos fístulas ocluídas há até 14 dias.

Salvar a fístula vale a pena: preserva um acesso que já está pronto e as veias para o futuro, e evita ou encurta o tempo com cateter.

Como é o tratamento

O tratamento tem dois objetivos: retirar o coágulo e corrigir a causa, quase sempre a estenose. Retirar o coágulo sem tratar o estreitamento faz a fístula parar de novo.

TécnicaComo é feitaPontos fortes
Trombectomia cirúrgicaPor uma pequena incisão na pele e na parede anterior da fístula, o coágulo é retirado com um cateter com balão na ponta (cateter de Fogarty)Permite refazer a ligação entre artéria e veia um pouco acima, quando o problema está junto da anastomose, ou complementar com uma angioplastia
Trombectomia endovascularPor punção, sem corte, com cateteres que aspiram ou fragmentam o coágulo, guiados por raio XPelo mesmo acesso, trata no mesmo procedimento estenoses ao longo da veia e nas veias centrais
Angioplastia com balãoUm balão é inflado dentro do estreitamento para dilatá-lo; às vezes é necessário um stentCorrige a causa; acompanha as duas técnicas acima

As diretrizes não apontam uma técnica melhor para todos os casos. A escolha depende de onde está o problema, do tipo de fístula e da experiência da equipe, e muitas vezes as técnicas são combinadas no mesmo procedimento.

  1. AvaliaçãoExame físico e Doppler mostram a extensão do coágulo e onde está o estreitamento.
  2. Retirada do coáguloPor cirurgia, por cateter ou pelas duas vias.
  3. Tratamento da causaAngioplastia do estreitamento, revisão da anastomose ou, às vezes, um stent.
  4. Teste do fluxoO frêmito volta, e o fluxo é conferido antes do fim do procedimento.
  5. Volta à hemodiáliseVia de regra, a fístula já pode ser usada na sessão seguinte.

O procedimento costuma ser feito com anestesia local, às vezes com sedação, e na maioria dos casos o paciente vai para casa no mesmo dia. Ele pode ser feito em sala do centro cirúrgico com arco em C (raio X móvel) ou na hemodinâmica. O paciente deve estar em jejum sempre que possível e, via de regra, a fístula pode ser usada na sessão de hemodiálise seguinte.

Se não for possível salvar a fístula

Quando o coágulo é antigo ou a veia está muito danificada, o resgate nem sempre é possível. Nesses casos, planeja-se um novo acesso: uma nova fístula mais acima no mesmo braço ou no outro braço, ou uma prótese. Enquanto o novo acesso não pode ser usado, a hemodiálise é feita por um cateter.

O mapeamento com Doppler define a melhor opção e preserva as veias que ainda podem servir no futuro.

Como prevenir

No dia a dia

  • Sinta o frêmito todos os dias, de manhã e à noite. Você é quem primeiro percebe a mudança.
  • Conte à equipe de diálise qualquer sinal de alerta, mesmo que a fístula ainda esteja funcionando.
  • Não durma sobre o braço da fístula e evite relógios, pulseiras e roupas apertadas nesse braço.
  • Depois da sessão, a compressão do local das agulhas é feita pela equipe de enfermagem e deve parar o sangramento sem interromper o frêmito.
  • Siga a orientação do nefrologista sobre líquidos e peso seco, para evitar quedas de pressão.

Na clínica, o exame da fístula a cada sessão e a atenção à pressão venosa e ao fluxo ajudam a encontrar a estenose antes da trombose. Quando há suspeita, o Doppler confirma, e o estreitamento pode ser tratado com antecedência. Os cuidados gerais com a fístula estão no guia sobre a fístula arteriovenosa e, resumidos em uma página para imprimir, no guia “Cuidados com a sua fístula” (PDF).

Perguntas frequentes

Quanto tempo tenho para procurar ajuda se a fístula parou?

Procure no mesmo dia. Quanto antes o coágulo for retirado, maior a chance de salvar a fístula. Depois de alguns dias, o resgate fica mais difícil e, passados 14 dias, é quase impossível e geralmente contraindicado.

Vou precisar de cateter?

Nem sempre. Se a fístula for desobstruída a tempo, ela pode voltar a ser usada logo. Se a sessão de diálise não puder esperar ou se o resgate não for possível, um cateter é usado temporariamente.

O tratamento dói?

É feito com anestesia local, às vezes com sedação. Pode haver desconforto leve no local depois, controlado com analgésicos simples.

A fístula pode parar de novo?

Pode. Por isso o tratamento corrige a causa, além de retirar o coágulo, e a fístula continua sendo acompanhada. Novos procedimentos ao longo dos anos são comuns e fazem parte de manter um acesso funcionando.

Tomar anticoagulante evita que a fístula pare?

Em geral, não. Anticoagulantes não são usados de rotina para prevenir a trombose da fístula. Ficam para situações específicas, decididas com o nefrologista e o cirurgião vascular.

Referências

  1. Lok CE, Huber TS, Lee T, et al. KDOQI Clinical Practice Guideline for Vascular Access: 2019 Update. Am J Kidney Dis. 2020;75(4 Suppl 2):S1–S164. doi:10.1053/j.ajkd.2019.12.001
  2. Schmidli J, Widmer MK, Basile C, et al. Vascular Access: 2018 Clinical Practice Guidelines of the European Society for Vascular Surgery (ESVS). Eur J Vasc Endovasc Surg. 2018;55(6):757–818. doi:10.1016/j.ejvs.2018.02.001
Dr. Pedro Luciano Mellucci Filho, cirurgião vascular

Sobre o autor

Dr. Pedro Luciano Mellucci Filho

CRM-SP 179178 · RQE 84778

Dr. Pedro Mellucci é cirurgião vascular em Presidente Prudente (SP), dedicado a acessos vasculares para hemodiálise e quimioterapia: fístulas, próteses e cateteres.

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